“Comigo é na pedrada.”
(Por José da Cruz)
Zevaristo era considerado um cavuqueiro. Uma pessoa “da roça”. Morava lá pelos lados da Serra da Costela. Perdido lá no fundão de Goiás. Sumido lá pelo mato não fazia outra coisa a não ser atirar pedras. Era o dia inteiro atirando pedras. O pessoal que o circundavam achava esquisito, sorriam, mas aceitavam. Fazer o que... Vivia atirando pedras e fazia-o à mão livre sem bodoques ou atiradeiras e (pasmem) tinha uma pontaria invejável. Também pudera, reclamava os amigos, não faz outra coisa a não ser atirar pedras... Zevaristo sorria e (plaft) jogava mais uma. Uêêêêbaaa! Na mosca.
Assim se passavam os dias, um após outro, com uma noite no meio. Vai dia, vem dia. Uma pedrada aqui, outra ali. Sempre na mosca. Condefé, os recursos por aquelas bandas foram escasseando e Zevaristo junto com sua família tiveram que deixar o campo e rumaram para a cidade. Aqui o que tinha que dar já deu. Afirmara seu pai jogando o último caquinho de bule na carroceria de pau da velha caminhoneta. Vambora.
Na cidade grande, onde tudo indicava que seria mais fácil, estava mais difícil. Os empregos, mesmo os mais rudes eram muito difíceis e quando aparecia algum exigia experiência e o salário era sempre uma mixaria. Aos trancos e barrancos, seus quatro irmãos foram se empregando mas Zevaristo, nada. Não conseguia nada. Também pudera, explicava sua mãe dona Cândida. Só aprendeu a atirar pedras é nisso que dá.
O relógio do tempo e o destino se alinharam e certo dia quando acontecia uma das maiores festas da capital, um tal de carnavá, Zevaristo amargava mais uma busca de emprego sob um sol escaldante. A cidade estava cheinha de pessoas, ele nunca tinha visto tanta gente juntas. Que será que todo esse pessoal veio fazer aqui?! Perguntava-se enquanto entrava na Praça da Sé. A praça estava superlotada, e era só o anúncio da tal festa. Magina quando for a festa memo... Na busca pela colocação Zevaristo entrou em mais uma loja e ouviu mais um não. Aquilo era uma tortura. Foi entrando na praça pela lateral esquerda. Meu Deus! Exclamou. Isto aqui parece um formigueiro humano. Disse para si mesmo admirado olhando todo aquele pessoal. Isso é uma loucura!
De repente, um rapagão deu um esbarrão numa mocinha jogando-a no chão, esbarrou também numa senhora com carrinho de supermercado, jogando senhora e o carrinho contras outros . Velha senhora e mercadorias se esparramaram pelo chão. Dois camaradas vestido de palitó e gravata sacaram armas, enquanto um terceiro, também vestido como gangster tratava de ajudar a mocinha a se levantar. Esta gritava e esbravejava. Façam alguma coisa, seus palermas. Estava apavorada. Ele levou minha bolsa. Ele levou minha bolsa. Os dois com as armas nas mãos, não sabiam o que fazer... Também... como usar aquelas armas no meio daquele povão sem atingir alguém?!
A mocinha continuava a gritar. Minha bolsa, ele levou minha bolsa. Zevaristo agachou pegou uma daquelas latinhas pequenas de atum, sopesou-a na mão sacodindo-a para cima e para baixo e ficou olhando o bandido correr entre as pessoas trinta metros abaixo. E quando o ladrão dando mais três passos passaria entre duas pessoas abrindo um espaço de trinta centímetro Zevaristo levou o braço direito para trás e lascou a latinha de conserva. A lata veio girando e quando o ladrão abriu o espaço entre as duas pessoas previstas para passar (plaft) recebeu-a no pé da orelha tombando magistralmente no asfalto. Zevaristo caminhou até lá, pegou a bolsa e a latinha de atum e retornou. Devolveu a conserva à senhora que já estava terminando de recolher as compras ajeitando-as no carrinho. Sua latinha que peguei emprestada dona, me desculpe, agora ela está amassada. A mulher riu. Sua bolsa, mocinha. Ah seu moço, fico-lhe muito grata. Nesta bolsa tem documentos que são importantíssimos para meu pai.
O azarado ladrão acordou na delegacia e o pai da mocinha mandou chamar Zevaristo para conversar. Agora, quando virem Sannye Silva andando pelas ruas, se olharem bem, verão, além dos agentes da guarda pessoal da mocinha, um moço alto, com vestes muito comuns que parece apenas mais um curioso qualquer ali por perto. É Zevaristo que foi contratado pelo Presidente da República para ajudar a cuidar da segurança de sua filha. Um cavalo arriado nunca passará duas vezes por sua porta.
4 comentários:
Eu acredito que tudo na vida é aprendizado e você desenvolve um talento.
todos ali achava muito vago um talento de só aremeçar pedras, mas isso serviu e muito para o evaristo, que com um golpe certeiro, deu fim as praticas de um ladrão e teve um cavalo arriado a sua frente e se tornou segurança da filha do presidente.
Lucas santiago (col. est. polivalente)2º ano I-Noturno
È a pura realidade porque as vezes as pessoas tem talentos valiozos e não sabem utilizá-los ,ou,utiliza um e o mais insignificante,mas ,tudo tem o seu lado bom a pessoa com um talento insignificante,pode ser tornar alguém de enorme respeito.
Jelbson 2º''H''
Relata-nos que nem sempre o que os outros pensam é o melhor para nós,fazer muitas vezes o que é de nosso instinto pode garantir o nosso futuro.
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